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Protestos: entre os recrutados, punks e jovens de classe média

Único indiciado por dano ao patrimônio diz que motivo foi ‘preconceito’ contra seu cabelo moicano

13/06/2013 - 09:53 - Brasil
O que há em comum entre um punk, um rapper e um “mauricinho”? Os três querem a redução do preço das passagens de ônibus. Pelo menos foi o motivo que levou os estudantes Sávio Spanner, de 18 anos; Paulo Henrique Lima, de 24; e J.C., de 16, a se conhecerem e pisarem pela primeira vez numa delegacia, a 5ª DP (Mem de Sá), após participarem do protesto contra o aumento das tarifas, no Centro, na última segunda-feira. Todos foram recrutados pelas redes sociais ou receberam mensagens de grêmios de escolas secundárias ou universidades, movimentos sociais ou partidos políticos como o PSOL e o PSTU.

O punk Sávio Spanner participou do protesto contra o aumento das passagens de ônibus, no Centro do Rio

O punk e surfista Sávio foi o único dos 31 jovens levados para a 5ª DP a ser indiciado por dano ao patrimônio, acusado por um policial militar de danificar a moto dele. Na opinião do estudante, foi o seu cabelo moicano azul que o transformou em criminoso:

— Foi preconceito pelo jeito de me vestir e pelo cabelo. Eu não quebrei a moto dele, pelo contrário, na hora da confusão, fui buscar proteção. Eu nunca tinha participado de um protesto, mas não me arrependo — disse o jovem.

Depois de repetir seguidas vezes na escola, atualmente Sávio é aluno do ensino supletivo e se diz preocupado com as questões sociais, apesar de não usar ônibus.

— As pessoas que pegam ônibus gastam muito dinheiro com passagem. Eu moro na Barra, sou de classe média, mas não é por isso que eu vou deixar de pensar nos outros. A minha empregada pega dois ônibus para chegar de Rio das Pedras até a minha casa — explicou Sávio, que, além de levar uma bronca do pai, ainda teve que ceder a uma exigência: cortar o cabelo.

Aluno do São Vicente entre os levados para a 5ª DP

Andar de camburão pelas ruas do Centro e usar algemas de plástico não estavam nos planos dos estudantes J.B., de 16 anos, aluno do 2º ano do ensino médio do Colégio São Vicente de Paulo, no Cosme Velho, e de Paulo Henrique Lima, de 24, que estuda Segurança Pública na UFF e Direito na Universidade Estácio de Sá. Ambos garantem que não estavam atrás de uma aventura, mas, sim, de uma ideologia para viver. A bandeira da redução do preço das passagens de ônibus lhes pareceu o caminho mais natural, porque os dois, apesar das classes sociais diferentes, usam o transporte público. J.B., marinheiro de primeira viagem em manifestações, conta que só foi detido porque correu para o lado errado.

— É uma realidade muito triste de quem precisa comprar menos comida para pagar a passagem e ir trabalhar. Tem muita gente que não tem condições de lutar. Então, por que não lutar por mim e pelos mais pobres? Eu pego ônibus para ir ao colégio. Quando vou duas vezes para a escola no mesmo dia, ainda gasto com quatro passagens — disse J. B., morador de Botafogo e filho de pais engenheiros, que virou uma celebridade no dia seguinte ao protesto, quando foi ao colégio.

O colega universitário e rapper Paulo Henrique, o PH, mora com os pais no Jardim Bom Retiro, em São Gonçalo, e é filiado ao PSOL. O pai do jovem é mecânico de refrigeração e a mãe, dona de casa. Figura constante em protestos, o jovem já morou no Morro da Mineira, mas deixou o local quando era criança depois de uma chacina no morro.

— Eu milito nas causas de direitos humanos e segurança pública. Faço raps com essa mensagem politizada. O mundo hoje tem um cenário que não está muito claro. Tem conflito na Síria, no Egito. Não podemos ficar de fora — assegura o rapaz.

Nenhum dos jovens se arrepende de ter participado da manifestação. Eles negam veementemente que tenham participado de qualquer ato de vandalismo, principalmente de atirar pedras na centenária Igreja Senhora do Carmo da Antiga Sé, na Praça Quinze. O advogado Tomás Ramos, da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, que acompanhou o caso, explicou que os jovens, com exceção de Sávio Spanner, foram apontados como envolvidos na confusão do Centro. Segundo ele, os PMs disseram em depoimento que não tinham como comprovar a participação deles nos atos de vandalismo.

Fonte: O Globo
Foto: Reprodução de internet

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