Passavam das duas horas da tarde quando a médica goiana Jussara Silva, de 38 anos, olhava encantada a chuva caindo sobre as folhas das mangueiras da Praça da República, no centro de Belém. 'Nossa, isso é lindo! A chuva daqui parece que tem algo especial. Quando cai, deixa a cidade ainda mais bonita. A chuva combina com Belém, deixa um clima gostoso', disse ela enquanto esperava o 'toró' passar para seguir conhecendo outros pontos turísticos da cidade. Jussara, que visitava Belém em abril por ocasião de um congresso, representa muitos turistas que passam pela capital paraense e ficam admirados com a 'chuva das duas', apenas um dos atrativos característicos da 'Cidade das Mangueiras'.
Belém cresceu às margens da baía do Guajará há 397 anos e, apesar de todos os problemas, não perdeu sua essência. Hoje, com mais de 1.410.430 habitantes, segundo o último censo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a modernidade caminha lado a lado com a imensa riqueza cultural herdada dos europeus e dos povos da floresta. Começando pelo Complexo Feliz Lusitânia, no bairro da Cidade Velha, o turista fica encantado com o Forte do Presépio, a Casa das Onze Janelas e o Museu de Arte Sacra. No mesmo local, a Corveta Solimões, ancorada desde 2004 no pier da Casa das Onze Janelas, convida o visitante a olhar ainda mais de perto as águas escuras e agitadas da baía. E o que dizer da Catedral Metropolitana de Belém? É da Igreja da Sé que parte a grande procissão do Círio de Nazaré, que acontece no segundo domingo de outubro em Belém.

Vista do Forte do Castelo
'Estou achando tudo lindo, o centro histórico de vocês fica bem de frente para um lindo rio que dá um contraste com os prédios históricos e faz a cara da cidade ficar diferente. São poucas capitais que são assim. E ainda bate um vento maravilhoso', conta a vendedora Sileide Batos, que é de São Luís e veio visitar a capital paraense por ocasião do casamento de uma amiga.
Ainda no centro de Belém, a Estação das Docas e o Mangal das Garças também foram erguidos de frente para a baía do Guajará e rio Guamá, respectivamente. Construída em 2000, a Estação das Docas é o resultado de um cuidadoso processo de restauração e revitalização dos armazéns do antigo Porto de Belém. Hoje, os galpões de ferro reformados cedem lugar a restaurantes, lojas e bares, com uma vista privilegiada para a baía. Já o Mangal das Garças, criado em 2005, é o verdadeiro espelho da riqueza amazônica em 40 mil metros quadrados de parque ecológico. O local possui um belíssimo mirante para o rio e abriga várias espécies de aves amazônicas como garças, marrecos e guarás, sem contar o borboletário. Também é possível ver quelônios bem de perto e se deliciar no restaurante 'Manjar das Garças'. Nos dois locais é possível contemplar o belíssimo por-do-sol que presenteia os belenenses no final de uma tarde quente.
Visto do Forte do Castelo, com as quatro torres em estilo art-noveau, com o Solar da Beira e a cidade ao fundo, o Mercado do Ver-o-Peso é o cartão-postal mais famoso de Belém. Construído em 1847, o mercado passa por uma grande reforma desde o começo deste ano, que promete revitalizar o espaço. Local de cores, cheiros e sabores, o Ver-o-Peso talvez seja a tradução de toda riqueza cultural paraense. Basta andar pelas barracas e conferir. Quem nunca provou o jambú, erva que produz um efeito anestésico na boca e o tucupi - líquido extraído da raiz da mandioca - não sabe o que está perdendo. As iguarias podem ser encontradas nos pratos típicos paraenses como o vatapá e o tacacá. E o que dizer do açaí? O fruto, que ainda sustenta muitos ribeirinhos, já virou mania nacional e nunca deixou de ser a paixão do belenense. Assim como o açaí, o cupuaçu e o bacuri também são frutas exclusivas e que podem ser encontradas facilmente no Mercado do Ver-o-Peso. O lugar também está envolto em misticismo nas barracas das ervas amazônicas, com plantas medicinais que têm poder curativo já comprovado pela ciência. Herança dos povos da floresta que convivem em perfeita harmonia com a medicina tradicional.

Complexo do Ver-o-Peso
'O turista fica encantado com as nossas ervas por que ele sente o cheiro e vê de perto. As ervas naturais eles não encontram em nenhum outro lugar do mundo, só aqui. Eles compram geralmente as pomadas milagrosas, como o andiroba e o óleo de copaíba, porque onde eles moram é muito frio e muitos sentem dores nas articulações', conta animada a erveira Beth Cheirosinha. Trabalhando há mais de 47 anos no Ver-o-Peso, Beth conta que dispensa um tratamento todo especial ao turista. 'Eles vêm chegando e eu os chamo de 'meu amor', 'meu bem', temos que tratar bem o turista que é para ele voltar. Faço de tudo para que eles saiam com uma boa recordação de Belém. Se eles são estrangeiros, eu também procuro cativar de outra forma, mostrando um sorriso no rosto e passando as ervas neles. Depois o tradutor explica para eles o que está acontecendo', diverte-se ela, ressaltando que herdou da mãe todo o conhecimento sobre as ervas medicinais.
Paradas obrigatórias de quem visita Belém, o Theatro da Paz e a Basílica Santuário de Nazaré também convivem harmoniosamente com a modernidade da cidade. Erguida em 1909, no local onde o caboclo Plácido encontrou a imagem original de Nossa Senhora de Nazaré, a Basílica é toda trabalhada nos estilos neoclássico e eclético, com pinturas delicadas que remetem à religiosidade católica. A Basílica é um dos símbolos do Círio de Nazaré e da devoção mariana. Não menos importante, o Theatro da Paz representa toda a riqueza da Belle Époque paraense. Construído em detalhes mínimos do estilo europeu, o local já foi palco de grandes espetáculos e artistas nacionais e internacionais. Hoje, ele também é palco do Festival Internacional de Ópera, realizado no segundo semestre pelo Governo do Estado.

Estação das Docas
Mas Belém é tão grande e oferece tantos atrativos que seria quase impossível mencionar todos nesta reportagem. Margeada pelas águas, a cidade tem em seus distritos de Icoaraci, Mosqueiro e Outeiro paisagens convidativas para um passeio ou banho de rio. O visitante que for para esses lugares não pode deixar de tomar uma boa água de coco na Orla de Icoaraci e se deliciar com as praias de água doce de Outeiro e Mosqueiro. Isso sem mencionar a bela Ilha de Cotijuba, que fica bem em frente à cidade. Para chegar lá, só de barco, saindo do trapiche de Icoaraci. Uma bela oportunidade para conhecer as praias e de passear pela baía do Guajará.
Plano promete alavancar turismo no Pará
Com todos esses atrativos, Belém e o Pará podem desenvolver ainda mais o turismo em relação aos outros produtos nacionais, já que o turismo interno continua aquecido. Uma pesquisa realizada em abril pela Fundação Getúlio Vargas, a pedido do Ministério do Turismo, revelou que os destinos mais desejados pelos brasileiros continuam sendo as cidades dos estados do Nordeste, com 46,4% da preferência; seguido do Sudeste, com 24,6%; e do Sul, com 21,6%. A pesquisa foi realizada com duas mil pessoas em Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.
Para reverter esse quadro, o Governo do Estado, por meio da Secretaria de Turismo (Setur) e Companhia Paraense de Turismo (Paratur), lançou no final de 2011 o 'Plano Ver-o-Pará' - Plano Estratégico de Turismo do Pará - uma ação com intuito de desenvolver e promover o turismo no Estado até o ano de 2020. Pelo projeto, a Setur executa o desenvolvimento do plano e a Paratur trabalha com o marketing e a comunicação. Segundo Jaqueline Alves, gerente de marketing da Paratur, para trabalhar o Plano também foi criada a marca 'Pará, a obra-prima da Amazônia', que traduz elementos regionais e a natureza amazônica para ser trabalhada como produto. 'Estamos trabalhando para que a marca se fortaleça e que os turistas se sintam atraídos ao vê-la e venham para cá. Também trabalhamos com valores como a sustentabilidade, diversidade, autenticidade e criatividade traduzidos nela', conta. A execução do trabalho na Paratur consiste em 'vender' Belém e os municípios do Estado como produtos turísticos em feiras, eventos e congressos da área, ressaltando a beleza e a riqueza cultural do Pará. 'Nossas atividades são focadas em eventos nacionais e internacionais, em parceria com a Empresa Brasileira de Turismo, a Embratur. No desenvolvimento do Plano, buscamos novos materiais e sites para apresentar essa nova imagem', explica.

Jaqueline Alves: 'Queremos tornar o Pará líder em turismo até 2020'
Ainda segundo Jaqueline, este semestre a Paratur trabalha com várias ações para desenvolver o Plano. Uma delas é o programa 'Press Trip', que consiste em viagem de familiarização para jornalistas e operadores de turismo. A ação oferece oportunidade para que jornalistas conheçam roteiros dentro do Estado e produzam matérias em seguida, promovendo o turismo no Pará. A Paratur também desenvolve um programa de capacitação para agentes e operadores de viagens que estão fora do Estado. Só este ano, mais de 120 pessoas já foram capacitadas em Lisboa e durante a 'World Travel Latin America', feira de turismo mundial realizada pela primeira vez na América Latina, em São Paulo.
O programa consiste em apresentar essa nova imagem do Estado, mostrando passo a passo do que o turista pode fazer aqui dentro e detalhando como o agente de viagens pode 'vender' o Pará. 'Isso é bastante produtivo porque o agente vende o pacote e já negocia com as agências de turismo receptivo aqui no Estado para concretizar a visita', explica. Os agentes também recebem um DVD com imagens dos pólos turísticos paraenses e um folheto específico produzido pela Paratur. Tudo para facilitar a venda do pacote nas agências. A Setur e Paratur também oferecem cursos de qualificação por meio do Peqtur (Programa de Qualificação Profissional do Turismo), cujo objetivo é preparar os trabalhadores da área para atender melhor os turistas. A ideia é capacitar mais de 10 mil pessoas até 2015.
A companhia também executa ações de captação de eventos, em parceria com a empresa Belém Convention & Visitors Bureau e o Hangar - Centro de Convenções e Feiras da Amazônia para trazer o maior número de eventos a Belém. Para este ano, dois grandes eventos já foram confirmados e mais quatro foram fechados durante a Feira Internacional de Turismo na Amazônia do ano passado. 'Queremos tornar o Pará líder em turismo até 2020 e vamos conseguir se o Plano for executado de forma contínua e integrada, porque ele nos dá um norte de como desenvolver a atividade turística. Com o produto melhor estruturado vamos poder oferecer um serviço de excelência, que faz toda a diferença', pontua Jaqueline. 'Eventos como Ver-o-Peso da Cozinha Paraense e entradas de nossos produtos na mídia nacional, por exemplo, também já ajudaram bastante, mas podemos fazer muito mais'.
O Plano Ver-o-Pará prevê melhorias na infraestrutura tanto em Belém quanto em outras regiões turísticas do Pará. O processo está em fase de aprovação pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e os recursos devem chegar à marca de US$ 44 milhões. Só Belém deve receber quase US$ 7 milhões, enquanto o Marajó deve ficar com US$ 22 milhões e Tapajós com US$ 15 milhões em recursos. Os montantes devem ser aplicados na recuperação de estradas, portos e melhorias nos transportes fluvial e terrestre nesses pólos turísticos.

Um estudo da Paratur mostrou que pelo menos 68 navios já visitaram Belém nos últimos anos, somando um total de 47 mil turistas e um resultado financeiro de aproximadamente US$ 7 milhões, considerando o gasto médio individual de cada turista de cruzeiro no Estado de US$ 150 (cento e cinquenta dólares). Ao todo, nesta temporada de cruzeiros entre janeiro e abril deste ano, 11 embarcações aportaram na capital paraense trazendo 11.400 turistas, vindos principalmente da Alemanha, Estados Unidos e Inglaterra. Os visitantes gastaram em média R$ 304,80, movimentando a economia do Estado em R$ 3.448.044,00.
Desafios no setor
A turismóloga e professora da faculdade de Turismo da Universidade Federal do Pará, Diana Sá Alberto, em entrevista ao Portal ORM, disse que o 'Plano Ver-o-Pará' pode ser a saída do atraso no setor turístico paraense. 'O plano é sim uma renovação no turismo porque anteriormente não tivemos investimento algum no setor, só ações pontuais que não ajudaram muito. Ele procura aproximar as ações nos municípios paraenses de políticas públicas mais eficientes e tem concretude', ressalta.
De acordo com a professora, a faculdade de Turismo também participa do Plano realizando pesquisas qualitativas que traçam o perfil do turista e repassa para a Setur em forma de relatório. Esses estudos servem para traçar direcionamentos das ações seja em mída ou ações promocionais executadas pela Paratur. Apesar das acões, a professora explica que o setor ainda enfrenta entraves para se desenvolver. 'Agora que isso começou a ser trabalhado, mas por exemplo, temos que 'vender' o Pará para os próprios brasileiros nas agências. Eles sequer sabem que somos Brasil, desconhecem nossa realidade, falta conhecimento geográfico da região também, enfim, temos que quebrar paradigmas para pensar no turismo. O que mais é vendido é Belém, mas esquecem do Marajó, sul e sudeste do Estado, por exemplo', esclarece.

Diana Sá Alberto: 'Belém tem tudo para ser destaque na área'
Outro problema no entendimento da turismóloga, talvez o maior de todos, segundo ela, é a capacitação das pessoas que trabalham com turismo no Pará. 'Precisamos urgentemente de capacitação, essa é a palavra. Por exemplo, aqui na Universidade trabalhamos com os estudantes de forma que eles notem a parte humana do processo e não só a questão da pesquisa e o mercado. Temos uma formação humanística. Eles aprendem a como receber o turista e como tratá-los. As pessoas que trabalham em hotéis, nos receptivos e nas agências também poderiam passar por uma renovação', conta.
A professora explica que o Pará tem um imenso potencial turístico, mas que ainda pode ser mais explorado. 'Temos uma culinária com sabor único! uma cidade linda de frente para o rio, ilhas perto de Belém e praias maravilhosas no Marajó. Então, por que não fomentar tudo isso? O que temos de fazer agora é cobrar esse Plano e auxiliar para o melhor desenvolvimento dele'.
Para a presidente da ABAV-PA (Associação Brasileira das Agências de Viagens no Pará), Rose Larrat, Belém está preparada para receber os turistas, mas o setor precisa de mais incentivos. 'Estamos trabalhando muito agora em parceria com a Paratur e outros órgãos, mas percebemos que falta um marketing maior para vender Belém e o Pará em feiras e congressos do Brasil. Falta um grande trabalho de divulgação e é o que está acontecendo aos poucos', explica ela, ressaltando que a ABAV possui atualmente mais de 100 agências de turismo cadastradas no Pará.
Turismo religioso e de negócios
No segundo domingo do mês de outubro, Belém recebe milhões de visitantes no Círio de Nazaré, a maior procissão católica do mundo. Paraenses e turistas, juntos em torno da fé, pedem graças e rezam durante os 15 dias de festividade em homenagem à Nossa Senhora de Nazaré. Segundo dados do Dieese/Pa (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), o Círio do ano passado reuniu mais de dois milhões de pessoas em Belém e movimentou cerca de R$ 850 milhões. Isso faz de outubro o mês que Belém mais recebe turistas e visitantes.
Ainda segundo o Dieese, pelos menos 76 mil turistas estiveram na capital paraense, movimentando R$ 60 milhões. O número de turistas saltou de 72 mil em 2011 para 76 mil em 2012, representando um crescimento de 5,56%. A Quadra Nazarena trouxe um impacto para a economia de R$ 850 milhões. 'Está mais que comprovado que o Círio movimenta a economia, gerando emprego e renda para o paraense', destaca Roberto Sena, supervisor técnico do Dieese.

Círio de Nossa Senhora de Nazaré
Para fomentar ainda mais as ações de turismo em Belém, mas dessa vez no ramo de negócios, a Belemtur (Coordenadoria Municipal de Turismo) assinou contrato no mês de abril com a empresa Belém Convention & Visitors Bureau, uma organização de instituições que promove cidades e municípios para receberem grandes eventos. A ideia, segundo a Belemtur, é transformar Belém em um grande pólo voltado para o turismo de eventos na Região Norte. 'Ganham o taxista, o feirante, o lojista do shopping, o artesão e muitos outros profissionais e segmentos. Por isso, precisamos adquirir a consciência de que nós somos uma cidade de destino turístico', destaca Fábio Haber, coordenador de turismo de Belém.
Também durante o evento, a Belemtur lançou o mapa e guia turístico detalhado de Belém, além do site www.belem.pa.gov.br/belemtur, com dicas e informações sobre a cidade.
Estrutura - Criado em 2007, o Hangar - Centro de Convenções e Feiras da Amazônia fez com que o turismo de negócios em Belém crescesse ainda mais nos últimos anos. Em uma área de 8.500 metros quadrados, o espaço dispõe de 12 salas multiuso para 60, 80 ou 100 pessoas, além de um auditório modulável para até 2.200 participantes. O Hangar também conta com salas vip, praça de alimentação e um estacionamento para 850 carros. Só no ano passado, o local recebeu 203 eventos como shows, feiras, congressos e seminários, resultando em um público de 438.570 pessoas, isso sem contar os 404 mil visitantes que passaram pela Feira do Livro deste ano.
Texto: Bruno Magno (Portal ORM)
Fotos: Bruno Magno / Arquivo O Liberal
Edição: Rafaela Costa (Portal ORM)
Arte: Ivan Siqueira (Portal ORM)