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Estupro de turista dentro de van gera impacto negativo do Rio de Janeiro

Agências de notícias internacionais replicaram durante toda a segunda-feira o caso

02/04/2013 - 08:20 - Brasil
A pouco mais de três meses de um dos maiores eventos religiosos do planeta, a Jornada Mundial da Juventude, que atrairá centenas de milhares de jovens cristãos para a cidade, a terrível viagem de um casal de turistas americanos a bordo de uma van, que começou na Praia de Copacabana e acabou numa delegacia, expõe a face mais cruel do Rio. Durante as seis horas em que os bandidos estupraram a jovem e espancaram o rapaz, a Índia, onde houve um caso semelhante no ano passado, foi aqui. Além da violência em si, o impacto do crime na imagem do Rio — agências de notícias internacionais replicaram durante toda a segunda-feira os desdobramentos das investigações sobre o caso — é um revés no bom momento vivido pela cidade, impulsionado pelos resultados da atual política de segurança do estado. As reações foram imediatas.

— Ninguém espera ser assaltado dentro de um parque da Disney, algemado e ainda tomar uns cacetes. Copacabana é o nosso parque da Disney — disse o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis, Alfredo Lopes. — Ficamos tristes e decepcionados. Pela importância turística do local, nunca se espera um caso desses. Ninguém quer um assalto numa van em Bonsucesso ou no Complexo do Alemão, mas em Copacabana, cartão-postal famoso mundialmente? Sabemos que o nível de segurança da cidade melhorou muito, já não temos assaltos como antes em hotéis ou no trajeto do aeroporto, mas é para ligar o sinal amarelo. Em segurança, não se pode descuidar um minuto.

A agência da prefeitura para a promoção do turismo só se pronunciou por nota: “A Riotur repudia qualquer ato de violência, seja ele contra o cidadão ou contra o turista. Não se trata de um crime comum em nossa cidade, e, graças a uma ação rápida e investigativa da polícia, os culpados já foram identificados e presos”.

BBC: ataque chocou a mídia local

A associação entre o caso no Rio e o ataque a uma indiana em dezembro de 2012, que também causou comoção, foi feita nos sites de importantes veículos de comunicação, como o inglês “The Guardian” e a rede americana CNN. A página da BBC noticiou que “roubos são uma ocorrência comum em ônibus no Rio, mas a violência e a audácia do ataque chocaram a mídia local”. O “Washington Post” também chama a atenção para o episódio, que acontece num momento em que a cidade enfrenta o tráfico visando à Copa de 2014 e às Olimpíadas de 2016, assim como a Jornada Mundial da Juventude, que deverá reunir dois milhões de pessoas em julho.

Dois dos bandidos foram presos no sábado: Wallace Aparecido Souza Silva, de 22 anos, e Jonathan Foudakis de Souza, de 20. Um deles confessou o crime. Já o terceiro acusado, Carlos Armando Costa dos Santos, de 21 anos, foi preso ontem à noite em Itaboraí. Os acusados vão responder por roubo, estupro e corrupção de menor, já que um adolescente trabalhava como cobrador da van. A americana já voltou para os Estados Unidos, mas seu namorado ficou no Rio, para ajudar a polícia. Eles estariam há um mês no Brasil, estudando português.

O casal embarcou na van na Avenida Atlântica, com destino à Lapa, no início da madrugada de sábado. No trajeto, outros passageiros teriam entrado. Em Botafogo, no entanto, foram obrigados a descer. A partir dali, os americanos ficaram sozinhos com os bandidos. As duas vítimas teriam sofrido fraturas no rosto. O rapaz teria sido espancado ao tentar evitar o estupro da namorada.

Os assaltantes usaram os cartões de crédito dos turistas num posto de gasolina em São Gonçalo. De acordo com o delegado Alexandre Braga, titular da Delegacia Especial de Apoio ao Turismo (Deat), o proprietário da van é morador de São Gonçalo e teria alugado o veículo aos bandidos, mas não há indícios de sua ligação com o crime. Segundo o Departamento de Transportes Rodoviários (Detro) e a Secretaria de Transportes de São Gonçalo, o veículo não tem autorização para fazer transporte de passageiros.

Van pirata circulou 60 quilômetros

Ainda assim, a van percorreu cerca de 60km com o casal sem levantar suspeitas. Parte do percurso foi feita dentro do Rio, onde vans com aquelas características não integram qualquer das linhas em operação na cidade.

Ao ver as imagens dos acusados presos, uma mulher os reconheceu e foi à polícia. Ela disse que foi assaltada e estuprada por eles no dia 23 de março, também em Copacabana.

— Eu estava desesperada, pedindo pelo amor de Deus que eles me deixassem descer, que eu não ia contar para ninguém. Ele (o bandido) riu e falou: “O que a gente vai fazer com ela, hein?”. Aí eles pararam em algum lugar, e o rapaz que anunciou o assalto veio para trás. Eles me mandaram tirar a roupa e começaram. Eu poderia ter morrido — contou a vítima ao “RJTV”, da TV Globo.

Na segunda-feira, a delegada Marta Dominguez e a perita Martha Pereira Pereira, da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher de Niterói, onde o caso foi registrado, foram exoneradas. A medida foi tomada porque nada teria sido feito pelas policiais.

Um homem também reconheceu os assaltantes. A polícia não descarta a possibilidade de haver ainda outras vítimas do bando.

O horror pelo qual passou o casal americano evidencia uma outra situação preocupante no Estado do Rio: a falta fiscalização dos transportes públicos, em especial de madrugada. O próprio Detro reconhece que seus agentes só estão nas ruas das 5h às 20h, salvo em operações especiais. Coordenador especial de transporte complementar da prefeitura do Rio, o delegado Cláudio Ferraz afirmou que as ações de fiscalização de vans e Kombis piratas serão reforçadas na capital. Uma força-tarefa vai atuar em diversos pontos e horários. Ferraz descartou qualquer relação das novas ações com o caso dos turistas.

— Não estamos falando de um profissional do transporte que cometeu um crime. Foi uma situação completamente atípica. Se a van tivesse passado por uma blitz, seja da PM, nossa, ou do Detro, certamente seria aprendida. Mas é impossível estar em todos os lugares ao mesmo tempo.

A escalada dos estupros no Rio também preocupa. De acordo com o Instituto de Segurança Pública, em 2012 foram contabilizados 6.029 casos, 23,7% a mais do que em 2011 (4.871).


Fonte: O Globo

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