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Morre Mestre Verequete

Apesar de sua importância para a música, o Rei do carimbó, ícone da cultura local, morreu na miséria

04/11/2009 - 01:50 - Noticias

Alexandra Cavalcanti

Da Redação

Aos 93 anos, Augusto Gomes Rodrigues, o Mestre Verequete, Rei do carimbó, morreu ontem (3), às 12h, no Centro de Terapia Intensiva (CTI), do Hospital Barros Barreto, onde estava internado há seis dias. De acordo com último boletim médico, o paciente apresentava quadro de pneumonia grave, insuficiência respiratória aguda, infecção generalizada e respirava com a ajuda de aparelhos. Verequete deixa mulher e cinco filhos.

O secretário estadual de Cultura, Edilson Moura, disse em nota oficial que 'o Estado fará de tudo para que sua memória não seja esquecida. Verequete merece que as gerações futuras conheçam seu trabalho em prol da cultura paraense'.

Em entrevista ao Portal ORM, ontem, antes de Verequete morrer, a filha caçula do cantor, Lucimar Rodrigues, disse que a família estava emocionalmente abalada, mas que aguardava a reação dele aos medicamentos. 'Está muito difícil. A pneumonia é grave e esperamos que os antibióticos façam efeito. Os médicos dizem que não há aceitação do organismo dele aos remédios', lamentou.

Para quem compartilhou com Verequete o gosto pelo carimbó, a partida do mestre deixa uma lacuna na música paraense, segundo o músico Pinduca. 'Com a partida dele, vai perder o Pará e, principalmente, a música do Pará que é o carimbó, poque ele, assim como eu, estava fazendo a grande sustentação do desse ritmo perante a mídia. É uma perda muito grande para música paraense. Estou muito triste e já vinha lamentando a muito tempo o estado de saúde dele', disse ainda surpreso ao ser informado pela reportagem sobre a morte do colega.

O músico Ronaldo Silva, do grupo Arraial do Pavulagem ressaltou que o Mestre Verequete, que chegou até mesmo a ser homenageado pelo presidente Lula como Comendador da Ordem do Mérito Cultural, uma das mais importantes honrarias do Governo Federal, foi um exemplo da luta enfrentada por aqueles que escolhem o caminho da música no Estado do Pará.

'Para mim, a história do Verequete é a história de luta do músico paraense. Ele é um dos estandartes da música paraense, assim como foi Waldemar Henrique. Espero que a nova geração possa aprender com a música dele, que nos deixa uma lição de apego e cuidado com a cultura popular', disse.

Marcel Aredo, da banda Lã Pupunha, compara a trajetória de vida do Mestre Verequete a do músico Waldemar Henrique. 'Ele morre hoje, não vamos dizer que no anonimato, mas sem o devido reconhecimento, assim como ocorreu com Waldemar Henrique. Verequete, assim como o Mestre Lucindo, foi os maiores representantes do carimbó', destacou.

Apesar da importância tantas vezes ressaltada do músico para o cultura paraense, o músico viveu grande parte de sua vida enfrentando a miséria. Preso a uma cadeira de rodas desde que foi vítima de um AVC, passou parte dos últimos anos de sua vida num quarto-e-sala alugado numa vila da periferia de Belém.

O músico se mantinha com um pensão mensal de R$ 900, concedida pelo Governo do Estado. Uma rede de farmácias oferece R$ 1 mil em remédios por mês. A outra fonte de renda é a aposentadoria do INSS. Em sua última entrevista sobre seu estado de saúde, Mestre Verequete fez questão de dizer que continuava forte. 'Minha saúde é boa, mas é caída. Um dia está bem, mas no outro, não. Mesmo assim ainda não me derrubou', disse algum tempo depois de sofrer um AVC.

'Saudade, só sinto dele, do meu pai'

Verequete passou as últimas três décadas de sua vida ao lado da mulher, Josenilda Pinheiro da Silva, 52, mais conhecida como Dona Cenira. Os dois tiveram uma filha, Lucimar, 25. Verequete teve quatro filhos do primeiro casamento e um deles, Augusto Carlos, 43, integra o lendário grupo O Uirapuru, que acompanha Verequete desde o início da carreira.

Cenira é quem ajudava o marido nas entrevistas e o acompanhou em seus últimos projetos, entre eles, 'Verequete: o Rei dos Tambores', da musicóloga Laurenir Peniche, bancado pela Vale, e que rendeu ao artista R$ 11 mil, usados na reforma do único imóvel da família.

Cenira e Verequete se conheceram em 1975. Ela tinha 18 anos e era garçonete de uma boate no bairro do Telégrafo, em Belém, que na ocasião contratou o cantor e seu grupo. 'Ele foi meu primeiro namorado sério', gostava de dizer Cenira. Os dois foram morar juntos. 'Eu já era separado. Ela se meteu no grupo e eu peguei amor a ela', contou Verequete. O casal foi contratado pelo dono da boate Havaí 50, onde morou até 1982, quando Cenira ficou grávida.

O gosto pelo carimbó acabou levando o neto do músico Felipe, 17, a fazer parte do grupo O Uirapuru. 'Sou cantor desde criança, aprendi com o meu pai, que botava pássaro e boi em Ourém', disse ele em uma entrevista. A figura paterna era sua melhor recordação. 'Saudade, só sinto dele, do meu pai que já morreu. Era ele quem dava todos os caminhos da minha vida', disse.

Analfabeto, não lia seus contratos

Nascido em um lugarejo chamado Careca, próxima da Vila de Quatipuru, no município de Bragança, Augusto Gomes Rodrigues foi para Capanema aos 17 anos e trabalhou como foguista na Usina de Luz por mais de dez anos. Sem dinheiro para comprar um passe e seguir de trem para Belém, veio andando a pé até Ananindeua. Em Belém, trabalhou na Base Aérea. Foi lá que ganhou o apelido, quando se encantou por uma música que conheceu no batuque e que no refrão dizia: 'Chama Verequete, ê, ê, ê'.

Verequete foi morar em Pinheiro, hoje distrito de Icoaraci, onde criou o grupo O Uirapuru da Amazônia. O primeiro disco foi gravado em 1970, 'Carimbó Irapuru do Verequete (Só podia ser)'. A partir daí, Verequete não parou mais e foram mais de dez discos lançados. Mesmo com todo o sucesso, inclusive fora do Pará, abandonou a carreira na década de oitenta, e e acusava os produtores de terem lhe passado para trás. Foi quando ele perdeu a vontade de cantar e acabou com o grupo. 'Foi uma fase muito ruim, roubaram muito a gente', recorda-se Cenira.

O retorno, no entanto, só aconteceria em 1994. Durante esse período Verequete vendeu churrasquinho numa barraca em frente a vila onde mora. Essa foi a fase mais difícil da vida do artista, que reclama nunca ter recebido os direitos autorais de sua obra. 'Ele é analfabeto, não leu os contratos que assinou e ficou tudo no nome das gravadoras', explica Cenira.

'Era extraordinário, tinha um domínio incrível sobre sua obra'

'Mestre Verequete partiu, mas ficou Mestre Verequete. Mestre Verequete subiu, mas tá aqui entre nós, Mestre Verequete'. Este é o trecho da música que o cantor paraense Nilson Chaves começou a fazer horas após tomar conhecimento da morte do Mestre. 'Ainda é só uma ideia, estava refletindo sobre a morte dele, quando me veio à mente algumas frases. Como forma de homenageá-lo vou compor esta canção para que o grande mestre seja eternizado', diz.

Para o cantor a força e a energia com que Verequete se apresentava nos palcos eram uma de suas características mais marcantes. 'Ele era simplesmente extraordinário. Tinha um domínio incrível sobre sua obra. Teve um show que fez com cerca de 87 anos, exibindo uma garra impressionante. Um verdadeiro gigante', lembra.

Nilson Chaves diz que o mestre foi uma de suas inspirações e referência musical. 'Não só para mim, mas como para a música paraense contemporânea, pois muitas vezes, nós, artistas, cansamos de ‘beber’ Verequete; o seu talento e a sua contribuição são imensuráveis. Com certeza, vai deixar saudade', lamenta.

Para a cantora Priscila Lima, do grupo de música regional Muiraquitã, 'mesmo após já ter reconhecimento público, Verequete continuava com o mesmo jeitinho repleto de simplicidade'. 'Ele vestia literalmente a camisa do Pará e do carimbó, coisa que muitos paraenses não fazem', afirma.

A cantora Lucinha Bastos por diversas vezes se apresentou ao lado de Verequete, que em seus últimos shows, segundo recorda, o Mestre teve que se superar ainda mais. 'Ele já estava muito debilitado, mesmo com toda a dificuldade fazia questão de cantar. Até de muleta se fosse preciso. A sua alegria e seu entusiasmo superavam qualquer dor'.

Para Lucinha, Verequete deixa seu canto eternizado. 'Como ele mesmo sempre cantou, ‘o carimbó não morreu, quem canta o carimbó sou eu’. Este verso me fez lembrar de uma música do cantor Billy Blanco, que diz ‘morre o cantor, e o canto permanece’. Assim será com o mestre', finaliza.

Músico gravou dez discos e quatro CDs. governo lhe concedeu o título de comendador.

 Uma jovem chamou Augusto Gomes para conhecer um batuque no bairro da Pedreira. Em meio a roda, o pai de santo cantou 'Chama Verequete' e a partir daí Augusto decidiu trocar de nome e então surgiu o Mestre Verequete.

Mas se engana quem pensa que foi apenas aí que o carimbó começou a fazer parte da sua vida. Aos três anos de idade, no mesmo ano em que sua mãe morreu, Verequete se mudou com seu pai, Antônio José Rodrigues, para o município de Ourém, desenvolveu os primeiros passos do ritmo que no futuro seria mestre: o carimbó.

Mestre Verequete nasceu no município de Quatipuru, na região bragantina, nordeste do Pará, e com esse apelido acabou ganhando fama e respeito, sendo cosiderado o Rei dos Tambores, um ícone da cultura regional. Ao longo da carreira, gravou dez discos e quatro CDs. Uma produção que lhe rendeu o Prêmio Mestre Humberto Maracanã, do Ministério da Cultura.

O Rei do Carimbó teve sua história contada no filme 'Chama Verequete' (Brasil, 2001, 20 minutos), dos diretores Luiz Arnaldo Campos e Rogério José Parreira. O filme recebeu o Kikito de Ouro na categoria curta-metragem no Festival de Gramado (RS). Em Brasília, Verequete recebeu do governo federal o título de Comendador da República.

Nota de pesar da Secult

Este dia 3 de novembro é um dia que a cultura paraense fica de luto, perdendo um dos seus maiores artistas. É com tristeza que o Governo do Estado do Pará manifesta seu mais profundo pesar pela morte do grande Augusto Gomes Rodrigues, o Mestre Verequete, aos 93 anos.

Augusto Gomes Rodrigues, o Mestre Verequete, nasceu na localidade de Careca, próximo à Vila de Quatipuru, em Bragança (PA), em 1916. Com 12 discos gravados e outras tantas composições feitas, Verequete é a maior expressão artística do Carimbó do Pará.

A Secretaria de Estado de Cultura informa ainda que o velório acontecerá no Teatro da Paz, a partir das 17h desta terça-feira. O enterro acontece no cemitério Parque das Palmeiras, às 16h da quarta-feira. A apresentação da Amazônia Jazz Band que aconteceria hoje, no teatro, foi cancelada para outra data a ser definida.

Segundo Edilson Moura, secretário de Estado de Cultura, pela sua importância para a cultura do Estado, Verequete foi um dos maiores nomes à frente da campanha 'Carimbó Patrimônio Cultural Brasileiro' e foi homenageado, em 2009, pelo Edital Prêmio Secult de Culturas Populares - Edição Mestre Verequete.

'O Estado fará de tudo para que sua memória não seja esquecida. Verequete merece que as gerações futuras conheçam seu trabalho em prol da cultura paraense', afirmou.

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