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Memórias de um campeão

Ex-zagueiro Abel conquistou títulos por onde passou e participou da vitória do papão sobre o Peñarol

21/06/2009 - 00:00 - Notícias

O ex-zagueiro Abel é um dos poucos jogadores do futebol paraense campeão estadual pelos três grandes da capital. Em 1960 ele venceu o Parazão pelo Remo, clube que o revelou, pelo Paysandu foi tri de 65 a 67, e na Tuna ele conquistou o título de 70, num time recheado de garotos e que tinha Marinho, Acari, Fefeu, Mesquita, Leônidas, entre outros. Mas foi na Curuzu que ele teve seu melhor momento, tanto que é muito mais lembrado com a camisa alviazul do que com as outras.

E não é para menos. Os anos 1960 no Pará foram do Papão. Foram sete títulos em dez anos. Isso sem falar na mítica vitória de 3 a 0 sobre o Peñarol, na época campeão do mundo. 'O Paysandu tinha uma equipe que misturava força e qualidade técnica, o que era o nosso diferencial', lembra Abel.

Acreano de Xapuri - como o jornalista Armando Nogueira e o médico Adib Jatene -, Abel veio para Belém aos dez anos, para estudar. De família toda remista, ele acabou fazendo mais sucesso no maior rival. A travessia da grande promessa foi tumultuada. 'Mesmo na época, era pior que ofender a mãe. A rivalidade era terrível.'

Curiosamente, Abel nunca foi jogador profissional. No Baenão, na Curuzu e no Souza ele nunca recebeu salário. Concursado desde jovem do Banco do Brasil, ele recebia pelo banco público. Nos clubes ficava só com as premiações. 'Mas na maioria das vezes eu dava os bichos para os jogadores. Tinha meu salário', explica.

Com 1,70m e de compleição frágil, ele fez da agilidade sua maior marca como zagueiro, mesmo contra adversários bem mais fortes fisicamente. 'Eu era rápido e sabia me antecipar. O Alcino, por exemplo, não tinha muita habilidade e não subia uma ‘gillette’. Quando pensava em cabecear eu já tinha me antecipado', lembra. Hoje aposentado, Abel lembra com carinho dos bons momentos de sua carreira de jogador.

REMO

Estudava no Colégio Nazaré e, um domingo, eu e meus amigos fomos treinar no Paysandu. Não conhecia ninguém lá e depois voltei para casa. Meu irmão, que jogou no Remo, soube disso e não gostou nada. Ele ligou para o Evandro Almeida (ex-zagueiro que na época era treinador da base e que depois deu nome ao estádio do Baenão) avisando que me levaria lá. Me apresentei, treinei e no segundo tempo do treino já estava no time de cima. Desde então nunca mais fui reserva em minha carreira. Nessa época comecei na lateral-direita e depois fui para esquerda. Cheguei a jogar como volante e depois fui para a zaga.

TRAVESSIA

Mesmo na época, era pior que ofender a mãe. A rivalidade era terrível. Eu trabalhava no Banco do Brasil e sempre falava com o Nabor Silva, que era do Paysandu. Ele falava quase diariamente comigo e sempre me convidava. Dizia que um dia iria. Mas um dia tive um entrevero com o amigo Oswaldo Trindade e me aborreci. Disse que sairia do Remo e ninguém acreditou. Aceitei o convite do Paysandu e fiz uma carta para o Conselho Deliberativo do Remo. O seu Nabor mal acreditou e na hora mandou levar o documento para eu assinar. No dia seguinte a 'Folha do Norte' estampou 'Abel do Remo vai para o Paysandu'. Uma semana depois estreei num Re x Pa. Era uma quarta-feira à tarde e o Paysandu venceu por 3 a 0, e eu fui eleito o craque do jogo.

PAYSANDU

Fui para a Curuzu numa época em que o Paysandu tinha uma excelente equipe. Venceu sete campeonatos na década de 60. Na época, o Oberdan e o Tito, ambos vindos do Fluminense-RJ, não se falavam. Poucas pessoas sabem disso. Isso atrapalhava o time. Num treino nós nos reunimos no meio do gramado e demos um ultimato a eles. Ou se acertavam ou um dos dois sairia. Foi um santo remédio. Ganhávamos com folga, mesmo Remo e Tuna tendo times muito bons também. Era um grupo unido, as pessoas eram diferentes, mas era um time e tanto. O Paysandu tinha uma equipe que misturava força e qualidade técnica, o que era o nosso diferencial.

BASE

Ércio, Edilson, Nivaldo, muitos jogadores subiram do juvenil, que também foi várias vezes campeão na época, continuo achando que essa ainda é a saída para os times paraenses. O Remo erra demais ao contratar até dez jogadores para uma competição. Tem que manter uma base local. Por incrível que pareça, o Remo tem a chance nesse momento de fazer um bom trabalho para o futuro. Esse é o caminho. Se depois notar que ainda faltam peças, aí sim vai buscar algum jogador, de preferência com um pouco mais de experiência. A base da equipe do Águia é um exemplo. O time deles é composto por dispensas de Paysandu e Remo.

TUNA LUSO

A Tuna sempre teve um time muito bom. Quando estava no Paysandu eles tinham uma linha ofensiva com Juvenil, China, Stanislaw, Teixeirinha e Daniel, que era fantástica. Mas a Tuna sempre teve a filosofia de vender seus jogadores. Só quem não saiu foi o China, que era um craque. Ele inventou a 'folha seca' dez anos antes do Didi. Em 1970 a diretoria levou o Aloísio Brasil, que era um treinador que sabia trabalhar com jovens valores. Ele pegou os que ficaram e juntou com a base. Tinha Marinho, Mesquita, Acari, Fefeu, Leônidas, jogadores muito bons e os colocou no time. A média de idade era de 21 anos. A equipe corria 90 minutos, marcava muito e sabia jogar com a bola. A maioria dos jogos foi vencida nos minutos finais, porque a garotada corria demais. Vencemos o campeonato com duas vitórias sobre o Paysandu, a segunda na Curuzu.

PEÑAROL

Em 1965, o Peñarol era campeão mundial e vinha de uma excursão pelo Brasil e vencia todo mundo. Até que chegou aqui em Belém. O jogo foi às 15h30, num sol escaldante. O Peñarol tinha oito jogadores da seleção uruguaia. Lá fomos nós para o jogo. Eles eram realmente muito bons, mas era o nosso dia. Fizemos 3 a 0 e eles não se conformaram. Pediram a revanche. Dois dias depois o Paysandu voltou a campo com o Nascimento, da Tuna, como centroavante. Nem era um combinado. O jogo foi 1 a 1. A repercussão foi tanta que após o primeiro jogo até jornalistas do Sul e Sudeste vieram fazer a cobertura da segunda partida.

CASTILHO

Ele jogou só um ano e no seguinte foi treinador. O Castilho era o melhor goleiro de clube do Brasil. Na Seleção não dava sorte. Teve um Sul-Americano que ele chegou a ser reserva do reserva dele no Fluminense, o Veludo. Era um jogador fantástico, tinha muita experiência, saía muito bem do gol e cantava o jogo. Como companheiro era mais reservado, com passagens por Seleção Brasileira e sabia fazer valer a autoridade que tinha.

ATACANTES

O Stanislaw, que depois jogou no Paysandu e no Remo, era um moreninho de 1,60m e canela seca, mas era muito habilidoso, esperto e malicioso. Ele grudava no zagueiro e puxava a camisa da gente sem ninguém ver. Não vou falar do Pelé porque isso não conta. Eu o enfrentei num amistoso contra o Paysandu em que o Santos venceu por 3 a 1 em 1967.

TÉCNICO

Tive a felicidade de ter o seu Evandro (Almeida) como primeiro treinador. Ele sabia ensinar. Nem xingar ele fazia. Quando perdia a paciência nos chamava de 'Meu santo'... Quando isso acontecia a gente sabia que ele estava furioso. Hoje poucas equipes treinam como naquela época. Outro treinador importante foi o Gentil Cardoso (no Paysandu). Ele sabia tudo de futebol e com ele só tinha vez jogador inteligente. Ele dava as instruções e depois cobrava se o jogador não fizesse o que ele mandava. Aqui no Pará ele foi o primeiro a instruir o goleiro a sair jogando, sem dar chutão. O goleiro era o Jorge ('Baleia') e ele tinha dificuldades para fazer isso, mas o seu Gentil insistia nos treinos. Naquela época podia recuar para o goleiro e era mais fácil.

APOSENTADORIA

Não queria ser treinador. Parei de jogar e voltei a estudar. Fui para o curso de Educação Física aos 33 anos. Depois fiz Direito e me formei em 1980. Nunca quis trabalhar com futebol. Em 1970 um jornalista me perguntou qual era ao maior mal do futebol paraense. Respondi que o futebol paraense tinha jogadores profissionais e dirigentes amadores. Os cardeais da Tuna me chamaram e pediram explicações, mas ficou tudo bem. Trinta e nove anos atrás eu disse isso e podia muito bem ser aplicado hoje em dia.

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